quarta-feira, 23 de março de 2016

O que é neurose?


Existem algumas palavras que são comuns no uso cotidiano, mas que muitos dos que a utilizam sequer sabem explicar o seu significado de maneira consistente. Este é o caso da palavra “neurose”. Vai me dizer que você nunca ouviu algo do tipo “ela é muito neurótica” ou “deixe de ser tão neurótico”? Mas, afinal, o que é neurose?

De uma maneira simples: a neurose é uma manobra defensiva enrijecida e desatualizada que utilizamos para buscar manter o nosso equilíbrio psicológico. Sim, eu sei que isto ainda não respondeu muito. Mas me acompanhe neste texto, e tornarei esta sentença mais compreensiva.

Assim como, no nível fisiológico, precisamos de comida e bebida, no nível psicológico, necessitamos de contato com outros seres humanos. Contudo, interagir com nossa sociedade e se relacionar com pessoas não é uma tarefa tão fácil. Para isto, precisamos constantemente mudar o nosso comportamento, utilizando de diversas formas e técnicas de interação, conforme a exigência de cada situação. De modo que, em alguns momentos pode ser preciso mantermos a calma e esperar, enquanto que em outros, o ideal seja realizarmos uma atitude urgente e diretiva, e assim por adiante.

Viver não é simplesmente se adaptar ao nosso meio (sociedade e pessoas de nosso contato), assim como não é o negligenciar alienadamente, mas buscar ativamente um equilíbrio entre as nossas necessidades pessoais e as demandas de nossa sociedade. Segundo Perls “um homem bem integrado é aquele que consegue viver em contato íntimo com a sua sociedade sem ser tragado por ela, nem dela completamente afastado”.

Contudo, quando nesta interação com o nosso meio ocorre uma situação suficientemente marcante (traumática), podemos desenvolver uma forma de comportamento defensivo que visa evitar o nosso contato com tal situação. E até então, não há nada de errado. Afinal, tal forma de funcionamento possui uma função provavelmente condizente com a situação. O problema surge quando, mesmo depois que a situação passe, este padrão de comportamento se mantenha de maneira rígida e automática.

Um exemplo? Suponhamos que uma moça viva um namoro conturbado com um rapaz que a humilhe verbalmente. Diante desta situação, ela com muito esforço escolhe por terminar a relação. E até aí, tudo bem. Afinal, ela fez uma escolha de acordo com a situação atual. Contudo, a partir disto, sempre que em um novo relacionamento o seu parceiro a confronte de qualquer maneira, ela se desconecta da situação presente e vivencia de maneira automática a mesma situação traumática do passado, interpretando o conflito com o namorado como exclusivamente uma forma de humilhação. Quando, na verdade, o conflito atual poderia possuir um “tom” muito diferente do “tom de humilhação” – poderia ser apenas uma forma inapropriada de o namorado alerta-la sobre algo. Seja como for, esta moça do exemplo escolherá repetidamente por terminar relacionamentos.

Explicado desta forma, você poderia me questionar: “Mas, essa tal de neurose, não teria uma função para a moça? Ela não seria uma forma de aprendizado para evitar a dor?”. Se você pensou algo deste tipo, saiba que, em partes, você estará certo. Afinal, a neurose não surge por acaso. Surge como a melhor forma que a pessoa encontrou (considerando os seus limites e potenciais), naquela dada situação, para lidar com o momento. Contudo, a partir do momento em que tal manobra é utilizada de maneira automática, sem checar em cada caso a sua real necessidade, ela perde a capacidade de evitar o sofrimento e termina por o cronificar – termina por evitar o próprio prazer e crescimento pessoal.

Retornando àquela moça do exemplo: Será saudável que ela aprenda a partir do sofrimento em seu primeiro namoro e passe a tomar maior cuidado ao conhecer uma nova pessoa. Mas não será saudável se, em contrapartida, ela chegar ao desenvolvimento de um comportamento neurótico. Pois neste caso, a neurose substituirá o seu contato com o presente e ela perderá a sua capacidade de julgar adequadamente. Ela passará a sentir e a responder as situações de uma maneira automatizada e não consciente, fechada em si mesma e sem conexão real com a situação particular. Por fim, ela perderá a capacidade de enxergar o óbvio e poderá não ser capaz de entrar em contato genuíno com seus novos namorados. E a cada término que ocorrer, mais defensiva poderá estar em sua próxima relação, carregando consigo crenças enrijecidas e negativistas acerca de relacionamentos (não apenas com namorados, mas também com colegas de trabalho, amigos e parentes) e de si mesma.

Colocando de outra forma: é como se o neurótico, diante de determinadas situações, repetisse sempre o mesmo caminho neuronal - ou seja, utilizasse sempre a mesma via sináptica. Deste modo, a terapia visa lhe auxiliar, a partir da plasticidade cerebral (capacidade do cérebro de se atualizar), no desbravamento de novos caminhos neuronais - no alcance de novas formas de pensar e sentir.

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