quarta-feira, 30 de março de 2016

O contato em nossa sociedade contemporânea


A nossa sociedade contemporânea, ao mesmo tempo que nos oferece inúmeras formas de contato (ligação telefônica, SMS, e-mail, mensagem instantânea via Facebook, Whatsapp, Skype, etc.), tornando possível se relacionar instantaneamente com qualquer pessoa do mundo, também o limite de forma esmagadora. Não digo isto como uma crítica aos meios de comunicação. Compreendo-os não apenas como úteis, mas como fundamentais diante a demanda de velocidade que nossos compromissos exigem.

O xis da questão em que quero chegar é justamente a quantidade de nossos compromissos e o peso que estes têm sobre nós. Desde pequenos somos lançados em um mundo de cobrança e de deveres, adaptando-nos a viver com horários definidos e cronometrados e com a mente sempre em alerta com nossas obrigações e com os seus devidos prazos.

Esta pressão se desdobra em uma palavra corriqueira que chamamos de “rotina”. Uma rotina que envolve os nossos dias, conduzindo-nos muitas vezes de maneira automática – e aí, quando paramos para perceber, já se passou uma semana, um mês, um ano... e de uma maneira tão rápida, que chega a assustar!

Não estou dizendo para nos rebelarmos das exigências de nossa sociedade. Temos responsabilidades a atender, temos contas a pagar, temos filhos a cuidar, etc... Contudo, se permitirmos que esta sociedade nos trague passivamente, possivelmente alcançaremos alguma forma de sucesso, mas pagaremos por tal um alto preço existencial.

Nossas cabeças andam “nas nuvens”, sempre conectadas a algo, mas dificilmente conectadas ao que realmente importa: o momento presente. Nisto, acabamos realizando contatos “frios” com as pessoas de nosso dia-a-dia, voltados unicamente a questões práticas de convívio. Algo que eu tenho visto com muita frequência são famílias reunidas, mas presencialmente distantes. E como reflexo desta falta de presença, pode acontecer de um destes não estar bem, mas os demais sequer perceberem.

O filósofo austríaco Martin Buber (1878-1965) diferenciava os relacionamentos humanos em dois tipos: relação Eu-Isso e relação Eu-Tu. Segundo este, relação Eu-Isso é quanto me relaciono com alguém, mas o foco principal da relação está em uma atividade ou em uma função a ser seguida. Como quando nos relacionamos com o operador de caixa de um supermercado, e até lhe dizemos “bom dia, tudo bem?”, mas o real foco está na cobrança dos devidos valores e não em realmente saber como esta pessoa está. Enquanto que relação Eu-Tu é quando me relaciono com alguém e o foco é de fato o relacionamento intersubjetivo, possibilitando a ocorrência de um contato entre estas pessoas.

Chegando neste ponto, há duas perguntas que gostaria de lhe levantar: (1) que tipo de relacionamento você tem mais realizado em sua vida? (2) que tipo de relacionamento você tem mais realizado com as pessoas que você considera importante em sua vida?

A partir disto, talvez você possa me perguntar “o que é realmente um contato?” e “como fazer isto acontecer?

Na psicologia, entendemos o contato como um sinônimo de encontro pleno; o entendemos como a forma pela qual a vida acontece e se expressa. Inclusive, nós acreditamos que, quando estamos face a face com outra pessoa, que o que lhe faz face é a energia que emana em mim em forma de contato – energia que gera mudança e crescimento. Porque é a partir do contato genuíno com o outro (com a sua realidade e com o impacto de nossa presença sobre ela) que abrimos em nós a possibilidade do novo e do desenvolvimento.

Mas, para que isto aconteça, é necessário estar presente no aqui-e-agora. É necessário, antes de mais nada, percebermos o espaço (objeto de nossos sentidos) e o tempo (objeto de nosso pensar) atual. É necessário nos dedicarmos com totalidade ao momento, nos desligando do turbilhão de coisas que que carregamos nas costas, de maneira que caminhemos para o passado apenas para iluminar nossas ações no presente (e não para ficar lá!), e que caminhemos para o futuro apenas para orientar os nossos passos na direção certa (e não para ficar lá!). Ademais, é necessária uma postura de disponibilidade – e de ambas as partes envolvidas.

Seria utopia querer viver constantemente em contato. A correria e a urgência de nossas vidas impossibilitam tal anseio. Inclusive, contato demais também pode nos saturar – e aí surge aquela vontade de poder estar um tempo apenas consigo mesmo. Contudo, encontraremos muitos ganhos pessoais ao buscarmos, mesmo em meio à nossa rotina, preservar e valorizar relações genuínas com aqueles que consideramos importantes em nossa existência.

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